Páginas

quarta-feira, 18 de maio de 2011

E viveram felizes para sempre! Será?

''Depois de todas as pompas e circunstâncias do casamento do Príncipe Inglês, me coloquei a imaginar cenas num futuro, talvez, não muito distante. A princesa chegando para uma consulta terapêutica. Aflita. Apertando um lenço nas mãos. Falando baixo. Ele mudou. Pode ser que eu também. Preciso pensar melhor. Nunca achei que poderíamos nos tornar um casal tão diferente do que éramos. Seguiu falando e começou a contar a última viagem que fizeram. Ele deu a partida no motor, segurou o volante e com muito pouca serenidade, olhou fixo para frente. Ela sentiu uma grande tensão vinda dele. Acreditou que ele poderia estar aproveitando o momento de dirigir para fazer reflexões. Quem sabe estaria tentando resolver questões com a rainha, com os irmãos ou até alguma coisa que tenha acontecido entre eles e tenha ficado mal resolvida? Ela não sabia no que tanto ele pensava, pois ele estava mudo. Não compartilhava nenhum pensamento. Ela quis respeitar. Tentou se distrair. Fez palavras cruzadas. Falou no celular. Ouviu músicas. Cantou um pouco. Depois de um bom tempo, provocou alguma reação dele lembrando canções que ambos gostavam. Ele não reagiu. Dirigia e pensava. Ou só dirigia e fazia de conta que pensava. Para alegrar o ambiente, ela contou um caso, depois uma piada. Leu placas e propagandas da estrada. Procurou estabelecer contato com ele, mas ele se manteve firme no seu propósito de ficar longe. Ela se incomodou. Não se conformou. Sentiu-se excluída. Sentiu-se mal amada. Que droga de silêncio! Era uma agressão medonha. Haveria outra? Achava que não. Confiava no seu taco. Respirou fundo. Voltou a matutar. Seria depressão? Queria que ele se sentisse melhor. O que estaria se passando com ele? Colocou a mão no ombro dele e arrumou um jeito de acariciar seus cabelos. Ele grunhiu e pareceu aceitar o seu carinho. Ela lembrou-lhe das vezes que chegaram a fazer deliciosas loucuras a mais de cem quilômetros por hora. Mudou a mão do ombro para a coxa dele. Ela achou que iria conseguir abrir uma brecha, derreter o gelo. Começou a deslizar suavemente sua mão. Subia e descia. Sorria e mexia. Mexia. Ele tirou sua mão como uma pessoa que acordou assustada. Não queria. Estava tenso. Frustrada, ela tossiu e pediu uma parada. Ele parou no primeiro lugar que apareceu. Um lugar qualquer com ônibus e caminhões, fumaça, barulho, gente e café requentado. No banheiro com cheiro de desinfetante barato, ela fechou os olhos e molhou o rosto com água gelada. Com os dedos, ajeitou os cabelos e conseguiu até estampar um sorriso meio forçado no rosto. Secou as mãos na camiseta. Uma vontade de fugir lhe invadiu. Para onde? Como? Com quem? Só um ímpeto. Foi voltando para o carro. De longe ela o enxergou. Ele parecia pronto para dar a partida. Ela mordeu o lábio. Balançou a cabeça. Apertou o passo. Abriu a porta, sentou-se e colocou o cinto de segurança. Ele virou-se para ela. Podemos seguir? Assim não. Não mesmo.''

Crônica Publicada no Jornal Diário do Povo em 30/04/2011
Rosali Michelsohn é Terapeuta e Consultora Organizacional
Contato:
rosali@tangram.org

Nenhum comentário:

Postar um comentário